A Rússia será engolida pela técnica?
Atualização de 2026/1 sobre o conflito Rússia x Ucrânia
VERSÃO EM VÍDEO DO ARTIGO:
Resumo: esse é um artigo que faz um update da situação geopolítica do conflito da Rússia x Ucrânia. Em um primeiro momento mostraremos nossa posição passada sobre o estado do conflito e depois vamos discorrer um pouco sobre as mudanças e o que tem acontecido de diferente de lá para cá. Por fim, traremos algumas tendências para os próximos meses.
Parte 1: Nossa posição inicial sobre o conflito Rússia/Ucrânia
No ano passado, ao analisarmos a situação do conflito da Ucrânia fizemos o seguinte prognóstico:
(Essa previsão pode ser conferida aqui no substack nesse link. O post não foi alterado ou editado de modo algum e inclusive essa previsão foi feita em live, o que garante a autenticidade e garante que nada do que eu disse foi modificado de lá para cá.)
Naquela época nossa leitura era que a estratégia ucraniana era atacar as fontes de petróleo russas para gerar uma grande piora econômica e, do outro lado, a estratégia Russa para ganhar o conflito era reduzir os recursos humanos ucranianos o máximo possível.
As estratégias do conflito poderiam ser resumidas assim:
Ucranianos: vamos destruir suas refinarias.
Russos: nós vamos matar vocês.
De lá para cá muita coisa aconteceu e cabe aqui algumas atualizações a respeito do conflito, principalmente no que diz respeito a questão acerca da técnica.
Parte 2: A questão da técnica no conflito ucraniano
A técnica, conforme aponta Jaccques Ellul, no livro The Tecnological Society, é um mecanismo que tem potencial de aumentar a eficiência de processos humanos, seja lá quais eles forem. Ellul tem uma visão mais sociológica e talvez um pouco menos filosófica que a visão Martin Heidegger, que vê a técnica como um modo de enquadramento existencial (Gestell), mas ainda assim Ellul tem uma visão interessante.
A técnica pode ser usada para deixar processos mais eficientes. Processos como a agricultura, a geração de energia, um incremento na saúde humana etc etc etc.
Um desses processos onde a técnica pode ser usada, que vale aqui citar, é o processo de guerra e extermínio de seres humanos. Como é o caso do conflito da Ucrânia.
Através da técnica é possível matar seres humanos e neutralizar alvos militares com um nível de eficiência maior.
Nada disso é novidade, não é algo que é dito pois pega mal, mas não é uma novidade. A segunda guerra mundial está aí para provar.
Contudo, junto com a técnica vem o preço dela. Sim, você pode matar humanos de um modo mais efetivo, mas tem um custo. Um exemplo são os aviões de quinta geração, que são muito eficientes, mas que são caríssimos.
Quanto mais avançada é uma técnica, a tendência é que ela se torne cada vez mais cara pois demanda um alto nível de especialização, pesquisa e desenvolvimento. Em muitos casos, o preço torna essa técnica inviável.
Pense o quanto de dinheiro um país teria que gastar se quisesse ter toda a sua força aérea com aviões de quinta geração. É inviável. O que é viável é ter alguns aviões de quinta geração e alguns tantos outros mais baratos. E dai você usa determinada técnica em determinada situação.
Ou seja não é só desenvolver a técnica, é calcular também o custo dela e se vale a pena ou não. É precisamente aí que entram os drones.
Um drone ou um fuzil?
Um fuzil moderno, usado no conflito da ucrânia, custa em média uns 1000 dólares1. Já um drone FPV custa entre 300 a 600 dólares2. Ou seja, um drone é mais barato que um fuzil. É economicamente mais viável. Ademais, o fuzil deixa o soldado mais exposto, o drone é operado por um soldado protegido, o que reduz as perdas de material humano.
A tecnologia de drones, bem como Ellul aponta em suas considerações sobre a técnica e a eficiência, foi capaz de aumentar a eficiência do processo de matar pessoas e destruir alvos. Principalmente a eficiência econômica da guerra.
A Ucrânia e a Rússia entenderam muito bem isso e passaram a fabricar drones em larga escala, pois eles são muito mais eficientes que somente usar soldados com fuzis, isso é revolucionário na guerra. No sentido de que nunca foi feito antes e em uma escala tão grande.
Todos os dias, centenas de drones levantam voo para combater na Ucrânia, tanto do lado russo quanto do lado ucraniano. O conflito na ucrânia mostrou claramente que o futuro das guerras são os drones.
Defender agora é mais difícil que atacar?
Se pensarmos nos conflitos antes dos drones, geralmente quem estava defendendo uma posição normalmente conseguiria ter perdas muito menores do que quem estava atacando aquela posição. Isso porque você, se está no lado que precisa defender, consegue fortalecer posições seja: cavando trincheiras, fazendo campos minados, construindo casamatas, fazendo barreiras de sacos de areia, etc.
Isso tornava muito custoso os ataques e pouco custoso as defesas. Tal fato ajuda a explicar o porquê a Rússia tem perdido muito mais soldados que a Ucrânia, é pela natureza do conflito: defender tende a ser mais fácil que atacar.
Entretanto, a dinâmica dos drones alterou esse antigo paradigma das guerras.
Hoje em dia, atacar com drones é muito mais fácil do que se defender deles e isso ocorre pela questão econômica envolvendo os drones.
Um sistema de defesa aérea para abater drones custa muito dinheiro. Mesmo os mais baratos (guerra eletrônica) ainda custam mais que o custo de você fabricar drones para atacar esses sistemas de defesa.
Ademais, construir sistemas de defesa para reposição demanda muito mais tempo do que construir drones, que podem ser feitos em grande escala industrial
Ou seja, a questão da técnica inverteu a ordem tradicional do modo de guerrear. É mais fácil fazer drones para atacar do que se defender deles. Um outro exemplo é o sistema iron dome de Israel, que custa milhões de dólares para abater misseis que custam alguns milhares de dólares.
Essa talvez seja a principal motivação de Israel atacar o irã, a questão dos mísseis, mas isso é um assunto para outro episódio.
Um céu menor para mirar
Mesmo que seja mais difícil defender do que atacar, no caso dos conflitos de drones, ainda assim é preciso ser dito que é muito mais difícil para o russo se defender dos drones ucranianos do que os ucranianos se defenderem dos drones russos.
Isso ocorre porque a área que as forças armadas ucraniana precisam cobrir com defesas anti aéreas (o tamanho do céu) é muito menor que a área que a russia precisa cobrir, uma vez que a Ucrânia é muito menor que a Rússia. Isso faz com que o russo tenha que espaçar muito mais suas defesas antiaéreas e, em alguns casos, tenha que escolher áreas para deixar vulneráveis em prol de defender áreas prioritárias, próximas do campo de batalha.
Upperhand ucraniano
A Ucrânia tem conseguido usar tudo isso que foi exposto no artigo de um modo que ela tem obtido vantagens com relação à Rússia nesse ano de 2025 para 2026.
Os objetivos da Rússia de reduzir o material humano ucraniano foram bastante prejudicados devido a gradual substituição de soldados por drones ucranianos no campo de batalha.
Ao mesmo tempo, através de uso de drones de médio alcance, e aproveitando a dificuldade natural geográfica da Rússia de se defender, a Ucrânia tem causado danos significativos às refinarias de petróleo russas e tem causado um grande dano humano e nas cadeias logísticas que suprem o front de batalha do lado russo.
Nesse sentido, a situação do conflito piorou muito para a Rússia desde a nossa última atualização sobre esse assunto. A Rússia não tem conseguido se defender do problema dos drones, apontados por nós em set/2025. A consequência natural é uma piora na situação da Rússia com relação a situação ucraniana.
Acabou para a Rússia?
Não. Não acabou para a Rússia, apesar de muitos canais pró ucrânia constantemente dizerem que “os russos estão desesperados”, como é o caso do Gordão Ucrânia.
Só porque a situação piorou bastante para a Rússia disso não se segue que a situação é irreversível.
A Rússia é um país resiliente e capaz de se adaptar às adversidades de um modo que a situação atual parece ser possível de ser contornada, mas não será fácil.
Existem três pontos que a Rússia deveria se dedicar, se quiser contornar a situação.
Em primeiro lugar os Russos precisam decapitar toda a cadeia de comando superior da Ucrânia, mais ou menos como Israel faz com seus adversários. Entretanto, isso é mais fácil de ser dito do que feito, uma vez que Zelensky e toda cadeia de comando sabem que isso pode acontecer. Talvez a Rússia precisaria da ajuda dos americanos para fazer esse tipo de operação com sucesso… mas eles terão essa ajuda?
Em segundo lugar faz-se necessário melhorar rapidamente as defesas contra drones, o que pode ser feito com a ajuda da indústria chinesa. Mas a pergunta que fica em aberto é: será que os chineses vão ajudar a Rússia nisso? E, se a China decidir ajudar a Rússia, será que esse apoio será capaz de parar os drones cada vez mais modernos?
Por fim, em terceiro lugar, a Rússia precisa expandir e aumentar significativamente seus esforços de guerra na Ucrânia. Até agora a Rússia está operando com uma capacidade propositalmente reduzida na Ucrânia, e precisaria ser aumentada essas capacidades. O que significa mais pessoas, mais armas, mais tudo. Entretanto, aumentar muito o esforço de guerra pode ser um risco político ao Putin.
Portanto, há sim como a Rússia reverter essa situação que ela se encontra atualmente. Não é como se estivesse tudo perdido. Entretanto, a situação da Rússia não é fácil, e desde a nossa última análise para cá (em set/25) a situação piorou bastante para os Russos. A ponto que até mesmo os principais propagandistas russos no Brasil, como o comandante farináceo, demonstram preocupação com a situação atual da Rússia.
E piorou justamente pelo motivo que nós dissemos em setembro, as refinarias precisariam ter sido mais bem protegidas e não foram.
Parte 3: Os próximos meses…
O domínio da técnica de drones se mostrou bastante efetivo para reduzir a assimetria de poder militar entre a Rússia e a Ucrânia e atualmente o conflito encontra-se em um stalemate levemente favorável à Ucrânia. A estratégia ucraniana de atingir refinarias tem sido exitosa e a estratégia russa de reduzir os recursos humanos ucranianos tem passado por dificuldades. De um modo geral nosso prognóstico de set/2025 parcialmente se concretizou e, de fato, o dano às refinarias começou a ser sentido e começou a virar um grande problema.
Mas o que acontecerá em 2026?
Existem algumas tendências. São elas:
Tendência pequena (mas possível) de assassinato de Volodimir Zelensky.
Continuação da tendência de declínio econômico russo SE nada for feito com relação aos drones.
Tendência de escalonamento do conflito por parte da Rússia, mas com um alto e perigoso custo político para Putin.
Aumento leve da possibilidade de uso de armas nucleares.
O que seria uma boa solução?
Uma boa solução para a paz seria a Ucrânia ceder alguns territórios para a Rússia e a Rússia se retirar de alguns territórios ocupados da Ucrânia. Ambos os lados deveriam ceder um pouco para alcançar a paz, mas não parece haver interesse por paz em nenhum dos lados no momento. A Rússia não quer a paz pois acredita que pode vencer o conflito através do esgotamento dos recursos humanos ucranianos e a Ucrânia não quer a paz pois acredita que pode fazer a Rússia colapsar com os drones através da guerra econômica.
A Rússia será engolida pela técnica?
Seria o avanço da técnica algo inevitável? Essa é uma discussão filosófica interessante. Jacques Ellul acreditava que uma técnica puxava o desenvolvimento da próxima e, nesse caso, parece ser verdade.
Os ucranianos aprimoraram as tecnologias de drones e, parece ser inevitável ao Russo a necessidade de criar uma nova técnica para contornar a técnica anterior, nesse caso a dialética da técnica será confirmada. Se o Russo não conseguir fazer isso a Rússia pode vir a ser engolida pela técnica.
Hoje em dia, mais do que nunca, a guerra não é mais sobre coragem e número de pessoas para brigar, é sobre tecnologia e capacidade industrial.
Não é mais sobre virtudes (coragem) e carne humana (soldados). É sobre desenvolvimento da técnica para superar a virtude e o humano no campo de batalha. É a junção da técnica com o transhumanismo aplicado às guerras.
Depende muito do modelo, alguns podem ser mais baratos e alguns podem chegar a 2000 dólares.
Fonte: https://dronetechforukraine.org/fpv/













Venham para o Saquaremismo cultural!!!
Cheguei à conclusão de que esse será o caminho a ser tomado mesmo.
A maioria dos humanos (ou pelo menos aqueles que se dizem livres) vai ser lentamente "phased out".
Talvez seja por isso que a taxa de natalidade esteja sendo drasticamente reduzida em populações difíceis de controlar (baixa preferência temporal e alta preferência por recursos de alto valor).
Tive esse estalo ontem.
O futuro é maquínico não porque é melhor, mas porque é o destino óbvio de qualquer sistema cibernético.
Enquanto a humanidade estiver refém de seus desejos materialistas, esse caminho não sofrerá desaceleração.