VERSÃO EM VÍDEO:
Resumo: O presente artigo vai discorrer sobre a construção de catedrais dentro de uma perspectiva medievalista. Vamos mostrar a importância de projetos multigeracionais e a importância também de se pensar a existência além da perspectiva puramente materialista e egoísta que existe na modernidade na qual habitamos. Por fim vamos falar sobre dois grandes projetos brasileiros multigeracionais que seriam talvez o mais próximo de o Brasil fazer catedrais.
Palavras-Chave: Catedrais. Medievalismo. Filosofia. Modernidade.
Um empreendimento de longo prazo
O ano era 1248 depois de Cristo. Mais precisamente no dia 15 de agosto.
Nesse dia, em uma pequena cidade do Sacro Império Romano Germânico, chamada Köln (Colônia), um arcebispo de nome Konrad Von Hochstaden iniciou um grande projeto arquitetônico.
Ali foi a colocação da pedra fundamental da Kölner Dom, a catedral de Colônia.
O que o arcebispo não sabia é que naquele dia começaria uma construção que levaria 623 anos para ser completada.
Foi um empreendimento grandioso, responsável por guardar nada mais nada menos que os restos mortais dos três reis magos.
A catedral foi parcialmente construída do ano de 1248 até aproximadamente 1473. Depois, do ano de 1473 até o ano de 1842 a construção foi praticamente parada para depois voltar a ser construída com mais empenho até o ano de 1880.
Um detalhe bastante interessante é que a finalização da construção buscou manter o projeto arquitetônico original, do gótico alemão medieval do século 12. As torres tiveram como base o desenho de um pergaminho de 4 metros de altura, guardado desde aquela época.
Todo processo de construção dessa catedral foi muito bem documentado. Desde o começo da construção em 1248, passando pelo desenho planejado em 1280, passando também por gravuras de 1499 mostrando a cidade de Köln com a catedral não acabada, e inclusive com fotos de 1855 mostrando a obra de construção em progresso.
O trabalho iniciado pelo arcebispo Konrad Von Hochstaden foi tocado adiante por inúmeras gerações do povo alemão, até ser concluído em 15 de outubro de 1880, ou seja, 623 anos e dois meses depois da colocação da pedra de fundação.
Por que isso importa?
Por que estamos trazendo esse assunto para nossa série de MedievalMaxxing? É porque as catedrais representam algo que poucas pessoas no mundo moderno conseguem compreender:
As catedrais eram feitas pelos homens para representar algo que estava além do homem.
Pense em uma perspectiva moderna liberal, qual é o sentido de você iniciar uma construção, fazer um investimento por assim dizer, que será concluído só 623 anos depois?
Você não vai ver o investimento render.
Nem seus filhos.
Nem seus netos.
Nem seus bisnetos.
Você não sabe nem se o país continuará existindo daqui 623 anos.
De um ponto de vista puramente materialista simplesmente não vale a pena. Uma catedral é uma alocação irracional de recursos: um custo alto, com um prazo longo e com uma taxa de retorno material negativa (você perde dinheiro).
Aqui entramos talvez naquela velha discussão sobre se vale a pena ou não plantar uma árvore que você nunca vai aproveitar a sombra.
De um ponto de vista individualista é claro que não vale.
Plantar uma árvore que você nunca vai aproveitar a sombra só começa a valer a pena se você começar a pensar na árvore além de uma perspectiva puramente individualista.
É precisamente nesse momento que você começa a adquirir um pensamento civilizacional. Você deixa de ser um humano que pensa só a partir de você mesmo e começa a ser um construtor de civilizações.
Aqui ocorre a dinâmica do sacrifício, você se sacrifica por algo que não é você, algo que está além de você.
Se sacrificar por você mesmo é fácil, difícil é se sacrificar pelo outro.
A perspectiva humana mais baixa começa pelo eu. Muitas pessoas vivem a vida inteira nessa perspectiva, principalmente no Brasil, é a famosa moralidade do caranguejo no balde.
Como cada pessoa só pensa a partir de si mesmo ninguém se ajuda e, a consequência lógica é que as pessoas começam a se prejudicar umas as outras buscando benefício próprio.
Alguns seres humanos, contudo, pensam a partir de uma perspectiva familiar, o que já é um avanço.
Você planta a árvore se o seu filho for descansar em baixo dela.
Ainda que essa postura seja melhor que a moralidade do caranguejo no balde, ela possui também limitações pois ela acaba formando famílias que só se importam com as famílias delas, e não as famílias dos outros.
Um exemplo disso são as famílias dinásticas que controlam o mundo ocidental.
Ou seja, nesses casos não é um indivíduo predando um indivíduo, é uma família predando a outra. O que é igualmente errado, o famoso vampirismo.
O terceiro estágio da condição humana é ver além da família, ver a tribo como um todo, se preocupar não só com você, nem só com a sua família mas também se preocupar com a sua tribo.
A versão da tribo pode ser um reino medieval, mas na nossa época são os estados nacionais.
É aí que está a virtude no nacionalismo. Ao invés de pensar só em você, ou só na sua família você começa a pensar no bem das pessoas do seu país.
E aí você planta a árvore para um brasileiro qualquer aproveitar a sombra no futuro. Essa é a mentalidade civilizatória, uma civilização é construída quando as pessoas começam a trabalhar não só por elas, não só pelas suas próprias famílias mas pelo seu povo.
Entretanto, o nacionalismo tem limites. Isso porque existe algo além da nação. Além do nacionalismo existe você pensar não só na sua nação, na sua tribo, no seu reino, mas sim existe o você pensar no gênero humano, na humanidade.
Talvez seja nessa região da existência humana que habite o filósofo.
Mas há ainda um próximo nível, muito fora de moda na nossa época….
Além de você mesmo.
Além da sua família.
Além do seu reino.
Além da humanidade…
Existe o além disso tudo. Que é o mundo transcendental.
E é precisamente quando as pessoas começam a pensar no reino de Deus que vale a pena erguer uma catedral. Antes disso é só uma alocação irracional de recursos escassos.
A modernidade cosmopolita
A modernidade inverte toda essa lógica. Na modernidade o transcendente deixa de ser a etapa mais elevada da existência (vida beata) e aquilo que era a etapa mais baixa, o eu, o self, o individualismo, o egoísmo, passa a ser visto como prioridade existencial.
Aquilo que era considerado um vício no mundo medieval é elevado a categoria de virtude no mundo moderno.
Essa mentalidade desgraçada (no sentido literal) é comum dentro do meio libertário e muitas vezes serve de base para a visão de mundo cosmopolita, que é um indivíduo que não pertence a nada além de si próprio que considera um absurdo, por exemplo, você ter uma nacionalidade. Muito das ações de muitos libertários (não todos) operam dentro dessa visão de mundo egoísta e, em muitos casos, explica porque alguém sairia do Brasil para morar em um lugar f*dido como é o Paraguai.
“Pelo menos eu pago menos imposto”
Peraí amigo.
Você optou por abandonar o lugar onde seus pais e seus avós nasceram (o Brasil) para ir morar em um lugar que no passado declarou guerra ao Brasil, matou brasileiros e que atualmente trafica drogas e armas para o Brasil para matar ainda mais brasileiros só porque você vai pagar menos impostos lá? É isso mesmo?
Você é um idiota no sentido grego do termo. Por favor não se aproxime, sua burrice pode ser contagiosa.
O mundo ocidental nos últimos 80 anos tem tido cada vez menos homens com um pensamento capaz de montar civilizações (pensamento transcendental) e cada vez mais homens com o pensamento capaz de destruir civilizações (pensamento egoísta).
Um exemplo claro disso foi o processo de desindustrilização americana e industrialização chinesa. As empresas americanas foram enviadas para China pois os administradores das empresas americanas, com seu pensamento egoísta, viram que eles tinham como ganhar mais dinheiro mandando as empresas para lá.
O meta da globalização serviu para gerar dinheiro e ofertar produtos mais baratos as custas da perda da capacidade produtiva e soberania dos países ocidentais. E inclusive serviu para financiar a guerra na Ucrânia. Mas esse é um assunto para outro post.
Um rei medieval constrói catedrais.

Nós vivemos no mundo moderno onde as coisas estão invertidas. Nós vivemos, por exemplo, em um mundo onde pessoas como Curtis Yarvin acham a catedral algo muito ruim. O quão degenerado você tem que ser para dar o nome de algo que você não gosta de catedral? Chamar de sinagoga com certeza Curtis Yarvin não vai…
Mas voltando…
Dentro de uma perspectiva do MedievalMaxxing a catedral é aquilo que ela sempre foi, uma coisa boa e, você como rei medieval, deve buscar na medida daquilo que lhe for possível construir catedrais.
Ou seja, a administração da sua vida não deve se resumir puramente a aspectos materiais, mas sim também a atividades que vão além do materialismo.
Você deve pensar em você, mas não só em você.
Você deve pensar na sua família, mas não só na sua família.
Você deve pensar no seu país, mas não deve ser um estadólatra.
Você deve administrar o seu reino levando em conta que existe o mundo além disso e a vida talvez seja um espaço no qual temos tempo de também construirmos as nossas catedrais. Que são projetos maiores do que nós mesmos e que talvez nunca veremos ser concluídos em vida.
Nesse sentido, vale sim a pena se esforçar para plantar uma árvore que você nunca vai colher os frutos.
É por isso precisamente que eu estudo filosofia e escrevo meus textos. Não por ser economicamente viável, pois não é. Não para ter fama, pois ninguém se importa com filosofia no Brasil, mas sim para que no futuro alguém venha a ler e talvez aproveitar os frutos e a sombra da árvore, para que talvez alguém habite a catedral que eu estou aos poucos erguendo, pedra sobre pedra.
Mas enfim, segue abaixo um grande adendo complementar ao texto. Não encontrei lugar melhor para colocar.
Adendo complementar: O Brasil possui catedrais?
A resposta simples é não. Desse modo assim como são as catedrais do velho mundo não. Isso porque o Brasil é um país muito novo, principalmente se você pensar que o Brasil começa para valer mesmo só em 1822.
Entretanto, de 1822 para cá o Brasil possui talvez dois projetos de engenharia multigeracionais que são dignos de nota. O primeiro projeto é a transposição do rio são francisco e o segundo é a usina hidroelétrica de Itaipu. Não são bem como catedrais, uma vez que são obras que não buscam o mundo transcendental, mas são obras multigeracionais. Talvez essas obras estariam na categoria de plantar uma árvore que você não irá aproveitar a sombra.
A transposição do rio São Francisco.
Em 1844 o nordeste passou por uma grande seca. Daí então, durante o reinado de Dom Pedro II, o engenheiro e político Marcos Antônio de Macedo surgiu com a ideia de direcionar água do rio São Francisco para o rio Jaguaribe, no Ceará. Conta a história que essa ideia foi apresentada a Dom Pedro II em 1847 e Dom Pedro II resolveu iniciar estudos para verificar a viabilidade do projeto inclusive contratando inclusive um engenheiro alemão para fazer um enorme relatório cartográfico do rio inteiro em 1852.
A ideia de fazer uma trasposição do rio São Francisco vai passando por múltiplos governos e múltiplas gerações. Do império para a velha república, pela era Vargas, pelos militares e assim por diante até chegar na era PT/PSDB com o FHC e o Lula.
Em 2007 o governo Lula começou a obra com um outro nome e tinha como promessa terminar ela em 2012. Mas não aconteceu no prazo. Ele passou a obra inacabada para a Dilma, que também não conseguiu terminar a obra dentro do prazo e durante o governo Temer a obra continuou sendo contruída até chegar no governo Bolsonaro, que continuou tocando a obra adiante.
Vivemos hoje em uma época muito polarizada e onde todos tentam clamar para si a transposição do Rio São Franscisco. A ideia original surgiu durante o império, passou por toda a história do Brasil e foi iniciada para valer no governo Lula 2 e foi terminada no governo Bolsonaro. Mas o que importa para nós é o seguinte: esse foi talvez o primeiro grande projeto nacional de engenharia multigeracional. Essa é uma obra equivale a plantar uma árvore que você nunca vai ver a sombra.
A usina hidroelétrica de Itaipu
A usina de Itaipu não demorou tanto assim como a transposição do rio São Francisco, mas ela talvez seja um exemplo ainda maior de você plantar uma árvore que você não vai ver a sombra.
Em 1960 o governo do Brasil e do Paraguai começaram a negociar uma solução para a fronteira que envolvia um treco do rio Paranã com as sete quedas, essa solução vira um acordo para a construção de Itaipu Binacional em 1966 durante o regime militar. Tanto o Paraguai quanto o Brasil eram regimes autoritários na época.
Contudo a obra é acertada somente em 1973 durante o governo do presidente com o nome mais estiloso da história do Brasil: EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI. Que era gaúcho de Bagé. A usina foi inaugurada em 1984 pelo carioca presidente Figueiredo, que tirou uma foto na época com o presidente do Paraguai.
A usina só foi colocada em sua capacidade operacional máxima em 2007. Boa parte das pessoas que idealizaram e criaram a usina nem chegaram a usar a energia por ela gerada ou utilizaram muito pouco, como foi o caso do presidente EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI, que faleceu um ano e pouco após a usina ser inaugurada.
Mas disso se segue que não valeu a pena?















Ótimo artigo Homero. Falando em catedrais, a de Chartres na França é muito bonita e parece ter um interior único e encantador.
Sobre o individualismo libertário, é muito curioso Ayn Rand, quanto Rothbard e Mises parecem compartilhar algum traço comum, quase como se fizessem parte de um grupo de pessoas que busca destruir tradições e coesão social para se sentirem mais confortáveis em um local. Talvez seja o olhar deles, um olhar vazio que também vejo no Curtis Yarvin e no Ben Shapiro.
Um abraço.
Off Topic tema de vídeo. Sobre garantia de emprego, pq funcionários públicos brigam fazem greve por esse “direito”. Nunca na história da humanidade houve algo do tipo ninguém nunca teve garantias de emprego até mesmo reis medievais não tinham este tipo de garantia.