Os BRICS e a queda (?) do ocidente.
Reflexões sobre o que é ser ocidental e desafios ao nacionalismo contemporâneo.
RESUMO: O presente artigo busca examinar os BRICS e a relação dos BRICS para com o Brasil. Em um primeiro momento mostraremos o que é o BRICS, como ele surge e o que ele se propõe atualmente. Depois, em um momento posterior do artigo, entraremos em uma discussão mais filosófica onde discutiremos o que é o ocidente, e qual sua relação com a ideia de declínio e queda.
Palavras-Chave: BRICS. Civilização Ocidental. Decadência. Brasil.
VERSÃO EM VÍDEO DO ARTIGO:
BRICS: de onde surgiu essa ideia?
Em um suposto discurso1 no clube de imprensa da Rússia, em dezembro de 1997, Yevgeny Primakov2 surge com uma ideia inovadora para a época. Essa ideia seria a formação de uma aliança estratégica da Rússia com a Índia e com a China. O objetivo dessa união era se contrapor a unipolaridade americana estabelecida com o período pós guerra fria, conhecido atualmente como o período do fim da história.
Essa ideia de Primakov aparenta ser o germe daquilo que se entende hoje como teoria do mundo multipolar. A teoria de mundo multipolar expõe o problema de um mundo unipolar e propõe um novo modo de ver as relações entre países. Nesse novo modo o mundo seria dividido em blocos de poder regionais e obter-se-ia a paz através de um consenso entre as potências que controlavam as regiões. Esse novo modo de gerar a paz opõe-se diretamente a paz unipolar, atualmente conhecida como pax americana.
A ideia de Primakov foi executada aos poucos pela Rússia e veio a se transformar naquilo que se entende hoje como os BRICS. O “B” de Brics é de Brasil e por isso estamos falando sobre esse assunto, pois nos interessa.
Curiosamente o termo BRICS não foi criado pelos BRICS. O termo “BRIC” foi criado em 2001 por Jim O'Neill, um chefe de pesquisa econômica global do banco Goldman Sachs ao analisar países emergentes. Depois foi adicionado a África do Sul e dai o BRIC virou BRICS.
O banco Goldman Sachs é uma empresa americana que existe desde 1869, fundada por dois banqueiros de origem judaica: Marcus Goldman e Samuel Sachs. A título de curiosidade o AUM da Goldman Sachs em 2024 foi de 3.14 trilhões de dólares.
O termo BRICS acabou pegando e formou-se um bloco econômico que atualmente conta com onze países, incluindo muitos países daquilo que se entende como o sul global. Eis uma linha do tempo:
1997 - Discurso de Primakov.
2001 - Nome BRIC dado por Jim O’Neill.
2011 - Adesão da África do Sul formando oficialmente o nome BRICS.
2023 - Adesão de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Formando o atual BRICS+ (Brics Plus).
Oswald Spengler: a multipolaridade como parte de um ciclo histórico
Oswald Spengler (1880-1936) é um autor praticamente desconhecido pela direita brasileira. Talvez muito do Spengler ser desconhecido no Brasil se deve ao fato de que o horizonte epistêmico nacional da direita tenha sido delimitado por Olavo de Carvalho, que não costumava ler nada que saísse muito da cosmovisão liberal conservadora. Esse talvez seja um dos principais efeitos nocivos da influência de Olavo de Carvalho na direita nacional. Intencionalmente ou não, Olavo de Carvalho definiu o frame do que você pode ou não ler como direitista. Mas esse é um assunto para outro momento. Voltemos ao Spengler.
Spengler em O Declínio do Ocidente (Der Vntergang des abendlandes) apresenta uma visão de que a história acontece de modo cíclico. Ainda, ele se aproxima de Aristóteles ao ver as civilizações como organismos vivos. O que Spengler adiciona é o fato de que, assim como os organismos vivos, as civilizações também morrem.
A visão de Spengler das civilizações é uma visão antagônica a visão Hegeliana e Iluminista de que a história ruma sempre ao progresso. O que ocorre não é o progresso mas sim ciclos civilizacionais de ascensão e queda. Essa comparação entre o pensamento de Spengler e o Hegelianismo é bastante complexa, não entraremos a fundo nisso nesse momento. Mas é importante citar esse antagonismo.
E se o mundo multipolar é na verdade parte de um ciclo histórico cosmopolita, da aldeia global? E se o surgimento do mundo multipolar é um sinal do declínio do ocidente?
Eu costumava pensar assim, mas não penso mais.
Toda civilização rui com o tempo e é destruída, isso parece ser inevitável. Spengler parece estar certo aí. Entretanto, supor o declínio do ocidente por causa do surgimento da iniciativa do mundo multipolar, como muitos defendem, é um erro. Quem pensa assim não entendeu o que é o mundo ocidental.
Santo Agostinho, bispo de Hipona
Se você acha que é alguém inovador por apontar o declínio do ocidente por ler Spengler e pensar que o mundo ocidental está acabando, saiba que esse assunto não é novidade nenhuma.
Santo Agostinho (354-430) escreveu um livro chamado A cidade de Deus (De Civitate Dei) onde ele está literalmente reclamando que o ocidente está em decadência. Sim amigo, isso mesmo, já no século 4 depois de cristo, há quase 1700 anos atrás, já tinha alguém olhando para o ocidente e pensando “it’s over”.
Na cidade de Deus Santo Agostinho está respondendo uma série de argumentos de falsas crenças e falsas religiões. Essas falsas crenças e falsas religiões poderíamos hoje chamar, de um modo geral, de: os tradicionalismos. Ele responde críticas de que a causa da queda do império romano seria a ascensão do Cristianismo.
Essa crítica que Agostinho responde é a crítica que Nietzsche, Evola, Guenon e boa parte do paganismo germânico fazem ao cristianismo, onde é atribuída culpa a figura de Jesus Cristo pelo declínio de uma moral heroica anterior a cristo, que seria a moralidade do auge do império romano.
Roma não decaiu por causa do Cristianismo.
A verdade é que Roma já estava decadente antes mesmo do surgimento do cristianismo tendo, na verdade, o cristianismo salvado o resto que sobrou de Roma, ao criar a idade média. O cristianismo é a negação dos valores de Roma pois os valores de Roma eram valores errados, incapazes de sustentar a civilização.
Um exemplo histórico da moralidade romana são as pinturas em uma casa de prostituição em Pompeia, como a cena abaixo:

Mas voltando ao assunto.
O ponto importante ressaltado por Santo Agostinho, da queda do ocidente, que nos faz pensar sobre o ocidente atual é o seguinte:
Talvez, o mundo ocidental se constitua a partir de uma visão crítica sobre si mesmo no que diz respeito a sua constante decadência.
O ocidente está caindo, desde sempre. Isso é o ocidente.
Se o mundo ocidental se constitui a partir de uma auto percepção de decadência então é correto dizer que o modo de ser padrão, ou seja normal, do ocidente é uma constante angústia diante da percepção de uma grande queda. Ou seja, a angústia que surge diante da tragédia.
É precisamente por isso que o ocidente começa na Grécia. É na Grécia antiga que surge a reflexão crítica da crise civilizacional e a ideia de declínio associado à tragédia. Ser ocidental é ver-se como decadente e pensar sobre a decadência. É assim desde o século 20 antes de cristo no período pré Homérico.
O ocidente surge dois mil anos antes de cristo e desde aquela época, como narram as tragédias gregas, o ocidente está em queda. Estar angustiado com a queda é aquilo que faz o ocidente ser o ocidente. E não só isso, tem também a não aceitação da queda.
Diferentemente de outras culturas e civilizações, que aceitam a queda como parte de uma era civilizacional (kali yuga), o ocidente se vê em queda e, constantemente tenta evitar a queda, fazendo correções de curso constante em seus processos civilizacionais. É dessa correção de curso que surge a dialética entre o conservadorismo e o progressismo. Mas isso é assunto para outro vídeo.
Ser um ocidental é estar sempre se equilibrando em uma corda bamba sob um penhasco na iminência de cair. A perspectiva de queda é sempre constante e é sempre necessário críticas e correções de curso. A crise ocidental não é uma exceção, mas sim a regra, é a dinâmica nominal de funcionamento do ocidente.
(nota mental: comentar sobre o espírito faustiano na versão em vídeo desse artigo.)
O que isso tudo tem a ver com o BRICS?
Antigamente pensávamos que o surgimento do mundo multipolar era um sinal de decadência ocidental, um sinal do começo do fim do ocidente. Pensar desse modo é comprar a noção spengleriana de que todas as civilizações se constituem dentro de uma dinâmica cíclica de ascensão e queda.
O ocidente não parece operar dentro dessa dinâmica. O ocidente não tem ascensão e queda, o ocidente só tem queda.
O BRICS é, na verdade, uma ameaça de tragédia, que força o ocidente a novamente refletir sobre si mesmo e modificar seu curso para evitar a dor da tragédia anunciada.
O BRICS é a lenha na fogueira da máquina dialética da reflexividade ocidental. É parte fundamental da visão trágica que o ocidente necessita para continuar existindo através da decadência. Nesse sentido, o BRICS não irá destruir o ocidente, muito pelo contrário, irá salvá-lo.
Pensemos em um cenário onde o BRICS não existisse.
Você acha que nesse cenário o ocidente teria se modificado do modo que se modificou? Provavelmente não.
Os momentos de estabilidade do ocidente (declínio lento) são momentos em que o ocidente cria crises, essas crises por sua vez irão levar o ocidente à uma angústia diante da possibilidade da tragédia (declínio rápido), que irá levar a uma correção de curso civilizacional. Já fazem 4 mil anos que é assim.
É por isso que o BRICS foi criado lentamente pelo ocidente no período do fim da história e o BRICS se transformou rapidamente em um motor de mudança e nascimento de um novo ocidente que, mais uma vez, corrige seu curso diante da possibilidade de decadência.
Nacionalismo dos BRICS: perspectivas e desafios
Outro ponto muito importante sobre os BRICS é que ele se baseia em uma premissa nacionalista. O BRICS se opõe ao mundo unipolar e faz isso através do nacionalismo. Esse nacionalismo por parte dos BRICS trouxe significativas vantagens e avanços nas civilizações do BRICS. Entretanto, esse nacionalismo esconde um problema, um grande desafio.
Ao estimular o nacionalismo e o fim do mundo unipolar cria-se um cenário onde o mundo americano também resolve entrar nessa dinâmica. Por causa disso que você tem um Estados Unidos mais intervencionista do que nunca. Se a regra do novo mundo é o nacionalismo, então os EUA serão também nacionalistas (américa first!) e, a partir daí, cria-se uma base cultural que justifica intervencionismo americano nos mais variados lugares, de um modo muito mais agressivo.
É precisamente aí que o BRICS encontra um grande desafio.
Cada país do BRICS, por ter uma premissa nacionalista, está pensando em si mesmo em primeiro lugar e, portanto, não irá ajudar outros países a não ser que esteja de acordo com seus interesses particulares. Nesse sentido o nacionalismo atual é uma espécie de egoísmo entre países. E, conforme bem apontado por Horkheimer em sua crítica a Sade: a moralidade Juliette (egoísta) é destrutiva.
Quando analisamos o nacionalismo como uma manifestação coletiva da individualidade destrutiva fica fácil de ver o problema: quando cada país só pensa em si ninguém se ajuda.
É por isso que a Rússia não ajuda o Brasil contra o Trump.
É por isso que a Índia não ajuda o Brasil contra o Trump.
É por isso que a China não ajuda o Brasil contra o Trump.
É por isso que a África do Sul não ajuda o Brasil contra o Trump.
E é por isso que o Brasil não ajudará os outros países contra o Trump.
Criou-se através do nacionalismo dos BRICS um estado onde cada país que cuide dos seus interesses. Isso é um prato cheio para o país que mais pode impor sua vontade sobre os outros, os EUA de Trump.
Em uma cenário onde todos os países do mundo são nacionalistas e cuidam só de seus interesses particulares em primeiro lugar, quem terá a vantagem em negociações bilaterais é sempre o país mais forte, que no caso é os EUA.
Nesse sentido o BRICS dá origem a sua própria destruição ao afirmar a premissa do nacionalismo.
O modo de resolver essa questão seria criar uma internacional nacionalista juntamente com uma aliança militar. Entretanto, nem uma dessas duas soluções está em andamento no momento e não há perspectivas de que será criado.
Se as coisas continuarem como estão os EUA vencerão em todas as negociações bilaterais e os BRICS serão lentamente enfraquecidos e gradualmente destruídos pelo ator que eles justamente queriam destruir com a iniciativa BRICS, os EUA.
Resumo da atual situação do Brasil, sendo o Brasil o coronel Fábio e o Rocha os Estados Unidos:
O B dos BRICS não deve estar na frente.
Já apontamos várias vezes a necessidade do Brasil ter bons analistas profissionais de geopolítica. Isso é muito importante pois faz-se necessário compreender o curso que o mundo está tomando, para que o Brasil consiga se adaptar o mais rapidamente possível. Se as regras do mundo estão mudando, deve também o Brasil mudar.
Se você costuma acompanhar esse substack você já deve ter ouvido várias vezes a metáfora de trocar os pneus do carro para se adaptar às novas estradas.
No atual momento o cenário que se apresenta é de um BRICS incapaz de dar uma resposta aos EUA de Trump. Os BRICS estavam na vantagem enquanto os EUA ainda não tinham dado uma virada nacionalista. Agora que eles deram essa virada os BRICS estão na defensiva e tudo indica que NÃO VIRÁ AJUDA EXTERNA para o Brasil contra os EUA.
Essa é a nova estrada, essa é a nova realidade.
Se os BRICS querem realmente acontecer é preciso que a China e a Rússia puxem a frente nessa iniciativa e não o Brasil. Ainda mais nesse cenário onde o Brasil não terá apoio caso atacado.
Diante disso faz-se necessário uma nova adaptação da geopolítica brasileira para algo mais neutro. Não adianta dar all-in com cartas ruins. Infelizmente essa mudança necessária só pode ser feita caso o Brasil tenha bons analistas tanto na esquerda quanto na direita para perceber a necessidade da mudança, mas não é o caso, principalmente na esquerda.
Quanto mais lenta a percepção da elite intelectual nacional da necessidade de reorientação de curso mais vai custar ao Brasil essa reorientação.
Talvez no Brasil tenham levado a sério demais o B como a primeira letra dos BRICS. Não é o Brasil que tem que fazer a frente nesse caso.
Inclusive é preciso considerar o fato de que um declínio econômico por parte do Brasil interessa não só aos EUA, como também interessa à China, que comprará produtos brasileiros com mais desconto. Se o Brasil entrar em crise ele vai precisa do dinheiro chinês mais do que ele precisava antes da crise, o que acentua a assimetria econômica chinesa com relação ao Brasil, que é a base da estratégia de guerra irrestrita chinesa (unrestricted warfare).
Adaptação. Adaptação. Adaptação.
É isso que o ocidente fez ao longo dos últimos 4 mil anos, é isso que o Brasil deveria (should) fazer. Se ser ocidental é ser capaz de mudar a sociedade para evitar tragédias vindas dos novos tempos, então, mais do que nunca, precisamos ser ocidentais.
Não conseguimos encontrar a fonte primária. Mas esse discurso é mencionado em múltiplos artigos de fonte secundária. Talvez nossa limitação na língua Russa não nos permita encontrar.
Yevgeny Primakov foi um político, diplomata e chefe da KGB e SVR. Ele nasceu em Kiev (atual Ucrânia) em 1929 e faleceu na Rússia em 2015.















Homero, creio que tudo isso irá acabar em acordão, principalmente se a f. lima sentir que vai vir quebra do swift. Ao contrário do que os direitistas vivem dizendo por aí, que seremos a nova venezuela e etc, o Lula não tem apoio massivo do generalato, e ainda por cima, muito, mas muito menos ainda das polícias estaduais e prf, fora as facções dentro da pf que são contrárias a isso, e por fim as elites rurais e urbanas do centro sul que já cansaram dele e do pt.
A juristocracia tem força sim, mas enquanto burocratas, como força pública são uma negação genuína, e ninguém dá golpe sem braço armado, endosso das oligarquias e apelo popular(artificial ou não).
Abç e a paz de Cristo !
Excelente analise feita por profissionais. Quero agradecer a indicação de O tempo e o vento, estou indo para o ultimo livro O arquipélago, realmente Veríssimo é diferenciado.